Entrevista

Yohansson Ferreira – Nascido para correr

Depois de brilhar nas Paraolimpíadas de Londres, Yohansson Ferreira vai com tudo para os Jogos do Rio

Autor: Luiz Humberto Monteiro Pereira
Fotos: Daniel Zappe/Mpix/CPB

13/03/2016, 15:17:36

O nome incomum foi inspirado no sueco Stefan Johansson, piloto de Fórmula 1 dos anos 80. Ele acelerava sua McLaren nos treinos para o Grande Prêmio da Espanha no dia em que nasceu em Maceió o pequeno Yohansson do Nascimento Ferreira. Por um problema genético, nasceu sem as mãos. Sempre gostou de jogar futebol até que, aos 17 anos, meio por acaso, conheceu o atletismo. “A Valquíria Carmelo, que treinava atletas paraolímpicos na cidade, me viu em um ônibus”, relembra Yohansson. Três anos depois daquele encontro no ônibus, estava do outro lado do planeta, em Pequim, disputando suas primeiras Paraolimpíadas. “Eu digo que não foi coincidência encontrar com uma treinadora paraolímpica no ônibus. Foi Deus que colocou a pessoa certa na minha vida”, emociona-se o alagoano, que desde 2011 mudou-se de Maceió para São Caetano do Sul, no ABC Paulista, onde treina com a seleção paraolímpica de atletismo.

Sua estreia olímpica em Pequim-2008 foi promissora. Prata no revezamento 4X100 m e bronze nos 200 m rasos. Mas foi nas Olimpíadas de Londres, em 2012, que Yohansson mostrou seu carisma midiático. Nas eliminatórias da prova de 200 m rasos T46 – para atletas com amputação nos membros superiores –, ele obteve a marca de 22.27 s, quebrando o recorde mundial. Na final, arrebatou o ouro com um tempo de 22.05 – novo recorde. Na comemoração, retirou um papel do bolso e mostrou às câmaras de TV. Era uma proposta de casamento à sua namorada Thalita, que estava assistindo seu triunfo no Brasil. A cambalhota dada no caminho do pódio, para comemorar que a proposta foi aceita, tornou-se sua marca registrada. Dias depois, levou a prata nos 400 m. Mas o final daqueles Jogos não foi tão alegre. Depois de quebrar o recorde paraolímpico dos 100 m rasos nas eliminatórias, terminou a final cruzando linha de chegada em último lugar, quase um minuto depois do penúltimo colocado, arrastando-se e chorando por causa de uma lesão – foi aplaudido de pé por 80 mil pessoas. Para as Paraolimpíadas do Rio de Janeiro, ele sabe o que quer. “Todos os dias penso no Jogos de 2016. Se você sonhar, se correr atrás dos seus sonhos, você pode todas as coisas”, ensina Yohansson, que é patrocinado Caixa Loterias e pela Cisco, além de fazer parte do Time SP, do Governo do Estado de São Paulo, e de receber a bolsa atleta do Ministério dos Esportes.

Jogos Cariocas – Como se aproximou do atletismo?

Yohansson Ferreira – Foi em 2005, com 17 anos. Eu nunca na minha vida imaginei ser atleta. A Valquíria Campelo treinava a equipe paraolímpica em Maceió e um dia me viu no ônibus. Ali mesmo ela explicou que treinava pessoas com deficiência, me perguntou se eu praticava algum esporte e me fez o convite. Então eu comecei a treinar, sem pretensão nenhuma de me tornar o melhor atleta do mundo ou ser medalhista paraolímpico. Mas as coisas foram acontecendo e eu fui vendo que podia crescer no esporte. Até o fato de eu já ter nascido assim, sem as mãos… Eu já nasci um atleta paraolímpico!

Jogos Cariocas – Quando percebeu que poderia ser uma atleta de excelência?

Yohansson Ferreira – Muitas pessoas falam que ninguém é capaz de formar um velocista. Um velocista já nasce veloz. Então, eu acredito que Deus já sabia que tinha um plano muito grande para a minha vida.

Jogos Cariocas – Qual foi seu momento mais emocionante, dentro do esporte?

Yohansson Ferreira – As medalhas das Paraolimpíadas de Londres, sem dúvida, foram as mais emocionantes. Mas o ouro nos 200 m rasos no campeonato mundial do ano passado, em Doha, também mexeu bastante comigo.

Jogos Cariocas – Correr em casa representa uma vantagem para os velocistas paraolímpicos brasileiros?

Yohansson Ferreira – Vai ajudar muito! Sei que os brasileiros vão apoiar bastante. E sem dúvida, em 2016, eu quero conquistar medalhas aqui, dentro do Brasil, com todo o público me apoiando.

Jogos Cariocas – Como vê o esporte paraolímpico brasileiro hoje?

Yohansson Ferreira – Está se tornando cada vez mais profissional. Em 2005, quando comecei a praticar, as reportagens eram todas sobre o fato de ser um atleta deficiente e da sua história de superação. Hoje, a imprensa não foca tanto na superação. Querem saber como foi o treino, como foi a preparação… Somos tratados como atletas profissionais e não como amadores. Isso é muito bom.

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