Caratê

Paulo Victor Torres – Luta sem trégua

Trabalho como motorista de Uber e venda de suplementos alimentares sustentam o sonho olímpico do carateca pernambucano que lidera o ranking brasileiro acima de 84 kg

Autor: Luiz Humberto Monteiro Pereira
Fotos: Divulgação

Paulo Victor Torres caratê
19/12/2017, 0:05:48

Quando não está lutando, Paulo Victor Torres está na luta. Sem patrocinadores, o carateca pernambucano do Recife, que lidera o ranking brasileiro kumite masculino senior acima de 84 kg, se vira como pode para sustentar a vida de atleta. Entre passagens aéreas e inscrições, foram quase R$ 2 mil de despesas mensais em 2017. “A dedicação diária aos treinos e as viagens que preciso fazer para competir tornam inviável um emprego fixo formal. Trabalho como motorista de Uber e também comercializo suplementos alimentares, na internet e pelas redes sociais. Como eu fazia faculdade de Educação Física e estou voltando aos estudos em 2018, é um ramo com o qual tenho certa afinidade. Tenho que ser guerreiro dentro e fora dos tatames”, acredita o faixa preta de 29 anos, que espera conseguir em 2018 uma bolsa atleta do estado de Pernambuco e outra do Ministério dos Esportes. Disputar os Jogos de 2020 é seu principal objetivo. “Só estarão nas Olimpíadas de Tóquio dez atletas em cada categoria. Normalmente existem cinco categorias de cada sexo, mas lá serão apenas três categorias masculinas e três femininas. A disputa vai ser duríssima. Mesmo sabendo que a quantidade de vagas é pequena, pretendo realizar o sonho de estar lá”, avisa Paulo Victor, que se prepara para disputar a Série A do circuito mundial em Guadalajara, na Espanha, em fevereiro, para somar pontos no ranking da WKF, a federação mundial de caratê.

 

Esporte de Fato – O que achou da inclusão do caratê como categoria olímpica nos Jogos Tóquio 2020?

Paulo Victor Torres – Foi de extrema importância. Vai ajudar a profissionalizar e valorizar ainda mais os atletas da modalidade. No Brasil, o esporte ainda é visto como amador e os atletas não são bem remunerados. A visibilidade vai aumentar muito. É um sonho de todo carateca estar nas Olimpíadas. Tenho certeza de que o mundo irá conhecer melhor o caratê.

 

Paulo Victor Torres caratê

 

Esporte de Fato – Como avalia as possibilidades do caratê brasileiro nos Jogos Tóquio 2020?

Paulo Victor Torres – Temos muitos atletas de qualidade com potencial, atletas que já foram campeões mundiais, sul-americanos, pan-americanos… O país estará muito bem representado e acredito que seja possível trazer umas três ou quatro medalhas. Acho que os brasileiros que tem mais chance de “medalhar” nos Jogos de 2020 são o catarinense Vinícius Figueira, da categoria menos de 67 kg, o paulista Hernani Veríssimo, da categoria menos de 75 kg, e a catarinense Valéria Kumizaki, da categoria menos de 55 kg.

 

Esporte de Fato – Como se iniciou no caratê?

Paulo Victor Torres – Comecei aos dez anos, em 1999. Sempre gostei de assistir filmes de lutas marciais. Um dia, meu pai procurou um professor de caratê no meu bairro e me levou. Quase 20 anos depois, estou no caratê até hoje!

 

Esporte de Fato – Como descobriu que o caratê também poderia se tornar a sua profissão?

Paulo Victor Torres – Quando comecei a ganhar os primeiros títulos, as pessoas começaram a dizer que eu tinha futuro nas artes marciais e eu comecei a me dedicar mais. Meu pai sempre foi o meu principal apoiador e se juntou comigo no mesmo ideal. A gente correu juntos atrás dos patrocínios para as viagens e logo comecei a conquistar vários títulos… E passei a viver para o caratê.

 

Esporte de Fato – Onde você treina?

Paulo Victor Torres – No Recife, com os meninos do lar Fabiano de Cristo, uma instituição de filantrópica que existe em todo Brasil. Fui para lá através da professora Vanessa Araújo, que tinha um time de alto rendimento que infelizmente acabou. Eu fui o único que resolveu continuar a treinar com ela, que me chamou para treinar lá com o pessoal. Treinamos todos os dias na parte da tarde, das 14 h às 16 h.

 

Esporte de Fato – Dos títulos que conquistou, quais considera mais marcantes?

Paulo Victor Torres – O segundo lugar no Sul-Americano desse ano, na Bolívia, foi importante pelo conjunto da obra, pois fui convocado de última hora, como reserva. E o terceiro lugar na Premier League de 2016, em Fortaleza, no Ceará, também foi bastante marcante.

 

Esporte de Fato – Como acredita que o caratê possa se desenvolver como esporte no Brasil?

Paulo Victor Torres – Através do trabalho da Confederação Brasileira de Karatê, já estamos tendo mais visibilidade. As competições nacionais começam a despertar o interessa das emissoras de tevê. Agora como esporte olímpico, a aceitação será muito maior do que era antes. Certamente vai ser possível atrair mais patrocinadores e futuros apoiadores, algo que é fundamental para a evolução e profissionalização do esporte no país.

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