Fórmula 1

Fórmula 1: dia em que Senna tomou um “drible” de Piquet

Há 31 anos, no mesmo circuito da próxima etapa do Mundial, dois brasileiros protagonizaram a ultrapassagem mais bonita de todos os tempos

Autor: Daniel Dias (www.diasaovolante.com)
Fotos: Divulgação

Piquet ultrapassa Senna na Fórmula 1
25/07/2017, 1:33:50

Tecnicamente, a fotografia aí de cima é bem ruinzinha. Mas o que ela representa vale ouro. A imagem eterniza o ato final daquela que é considerada por todos os envolvidos com a Fórmula 1 como a maior ultrapassagem de todos os tempos. O caçador, Nelson Piquet, a caça, Ayrton Senna.
O palco é o mesmo do próximo round da belíssima temporada de disputa pelo título, neste domingo, entre o alemão Sebastian Vettel e o inglês Lewis Hamilton, separados por apenas um ponto no campeonato. Há exatos 31 anos, um a mais do que a idade de Vettel, a principal categoria do automobilismo ultrapassava a barreira da Cortina de Ferro, composta pelos países europeus do Bloco Comunista, capitaneado pela União Soviética.
No dia 10 de agosto de 1986, em Budapeste – que alguns consideram a cidade mais bonita do planeta – inaugurava o circuito de Hungaroring. Sob um sol de mais de 40º, uma constante nesta época do ano naquelas pairagens, os pilotos de Williams, McLaren e Lotus lutavam ponto a ponto pelo campeonato. Na Williams de número 6 e na Lotus 12, dois brasileiros – até então, ainda não inimimigos mortais fora das pistas.
Hungaroring tem suas características, quase todas, negativas. Concebido não se sabe bem por quem, o traçado do circuito húngaro é o legítimo Inferno na Terra. Sempre sob um calor senegalesco, as corridas na pista são sempre um comportado trenzinho, já que, em condições normais, não existem possibilidades de ultrapassagens. Hungaroring é um circuito de rua travestido de um circuito de verdade.
Por isso mesmo, Piquet teve de inventar em 86. Depois da metade da prova, a briga pela vitória ficou limitada aos dois brasileiros, com Senna na liderança. Com o cérebro torrando pelo calor e pelas fechadas de porta do piloto da Lotus, Piquet tomou a decisão de tentar a ultrapassagem no final da reta dos boxes.
Para isto, Piquet arrumou um jeito de fazer a última curva do traçado colado à caixa de câmbio da Lotus preta e dourada. Em uma manobra clássica, percorreu quase toda a reta principal no vácuo de Senna e tirou o carro para a direita antes da tomada da curva 1. No entanto, Senna, percebendo que Piquet freara muito tarde, recolheu seu carro e retomou a ponta passando a Williams por dentro.
Mais furioso que nunca, Piquet teve de fazer duas voltas para limpar os pneus, pois quando errou a freada, ficou na parte suja da pista. Provavelmente o piloto mais cerebral que a F-1 já teve, Piquet continuou estudando os movimentos do oponente e “acessando” os dados de sua “caixa de invenções”.
Duas voltas depois da manobra infrutífera, Piquet partiu mais uma vez para cima na reta dos boxes e tirou da cartola um drible maravilhoso, ameaçando ir pela direira e dando uma guinada inesperada no volante à esquerda. Por breves momentos, Senna “perdeu” a imagem da Williams de seus retrovisores. Quando “encontrou” de novo, o carro 6 já estava na frente.
A obra de arte, entretanto, não termiva ali. Outra vez passando do limite da freada regular e para manter Senna atrás, Piquet guiou um F-1 de mais de 900 cavalos de potência como um kart, deixando o carro escorregar nas quatro rodas e fazendo a curva ao mesmo tempo. Mais: o sempre irreverente piloto brasileiro ainda encontrou tempo para fazer uma ofensa bem conhecida com o dedo médio em riste da mão direita endereçada a seu compatriota.
A ultrapassagem no GP da Hungria de 86 é considerada a mais bonita pelo conjunto das manobras inventivas e de improvisação de Piquet e também pela “vítima” ter sido Ayrton Senna.
Nos 30 anos seguintes, o GP da Hungria ficou marcado pelo martírio dos pilotos, obrigados a correrem em condições totalmente adversas. Mas também ficou marcado pela obra de arte de Piquet.

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