Editorial

Imprensa esportiva e a pergunta proibida: “Quem patrocina?”

Ao excluir os patrocinadores do esporte das notícias, jornalismo esportivo brasileiro dá um tiro no próprio pé

Autor: Luiz Humberto Monteiro Pereira
Fotos: Arte sobre foto de Luiza Kreitlon

15/04/2016, 12:13:11

Borrar logomarcas nas camisas, bonés e nas placas dos ginásios e estádios, nas fotos e vídeos. Mudar os nomes patrocinados de equipes e arenas esportivas para nomes “genéricos”. Suprimir os nomes dos patrocinadores dos nomes das competições patrocinadas. Dar cobertura apenas aos eventos esportivos que tragam anúncios pagos e ignorar os outros, mesmo que sejam mais interessantes para o público. A imprensa esportiva brasileira frequentemente enfrenta imposições inconfessáveis dos departamentos comerciais dos veículos de comunicação. Imposições que, muitas vezes, acabam atrapalhando a tarefa de comunicar.

Há casos onde o nome do patrocinador se torna o nome da equipe ou da arena. Não há outra maneira eficiente de citá-los. E o público, ao ver a equipe ou a arena que sempre conheceu por um nome ser tratada de uma forma “inventada” apenas para suprimir o nome do patrocinador, acaba sem entender direito sobre o que o jornalista está falando. Tremenda “bola nas costas” do jornalismo, que abdica da precisão em nome de um mercantilismo avarento e estéril, que não lhe rende nada.

E o pior de tudo é que, além de gerar ruídos na comunicação e abrir mão da qualidade jornalística por razões torpes, os veículos de imprensa que cedem a essas imposições prejudicam gravemente o desenvolvimento do esporte no país. Qual é a motivação de uma empresa para renovar o patrocínio a um atleta ou a uma equipe se, quando essa empresa aparece na mídia, a marca do patrocinador é suprimida? Por que essa empresa renovaria um contrato de patrocínio se o retorno de mídia é ínfimo em relação ao que poderia ser, graças ao intenso trabalho de “censura das marcas” realizado pelos meios de comunicação? O resultado disso tudo é que, prejudicados pela “ocultação” de suas marcas, os patrocinadores se tornam mais arredios e as verbas publicitárias, mais escassas.

O efeito colateral disso é perverso e bastante conhecido por quem se interessa por esporte. É o êxodo dos melhores atletas brasileiros, que partem para o exterior em busca de reconhecimento profissional para suas atividades – e vão para países onde os patrocinadores esportivos conseguem grande exposição de suas marcas, pegando uma merecida “carona” no sucesso das competições, equipes e atletas que apoiam. A perda dos melhores valores do esporte acaba gerando um outro efeito colateral, que afeta justamente quem iniciou o processo: a imprensa esportiva. Com os torneios nacionais esvaziados pela emigração de seus principais talentos, cai o interesse do público pelo esporte e, consequentemente, pelos veículos que cobrem o assunto. Com menores tiragens e audiências, caem os valores dos espaços publicitários e os veículos de comunicação esportiva entram em crise.

Como deveria ter sido aprendido depois da derrota de 7X1 para a Alemanha na Copa da Fifa de 2014, não dá para mudar o resultado de um jogo se não se muda a forma de jogar. Se pretendem melhorar sua performance, é hora dos veículos de comunicação da área esportiva reverem seus conceitos. Substituir a visão mesquinha e metalista por uma cobertura verdadeiramente jornalística, que valorize os fatos que são interessantes e não apenas os que remuneram os veículos, parece ser um caminho para virar esse jogo. Enquanto os responsáveis pela imprensa esportiva não perceberem isso e mudarem seus procedimentos para priorizar um jornalismo verdadeiramente qualificado, a goleada não para de crescer.

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