Fórmula 1

Fórmula 1 – Sucessos sem sucessores

Na principal categoria automobilística do mundo, o bastão de glória jamais passa de um conterrâneo para outro, nem de pai para filho

Autor: Daniel Dias (www.diasaovolante.com)
Fotos: Divulgação

senna e rubinho na Fórmula 1
25/09/2017, 23:50:31

Um dia antes de promover a bizarra “Sessão Pastelão” e viver seu “momento Três Patetas” ao lado de Kimi Raikkonen e Max Verstappen na largada do Grande Prêmio de Cingapura de Fórmula 1, na semana passada, Sebastian Vettel simplesmente brilhou no treino de classificação para a corrida noturna no circuito urbano de Marina Bay. Ao contrário de anos recentes, a Ferrari, desta vez, não tinha o melhor carro para o traçado. O “mais no chão” neste ano era o da Red Bull.

No Q3, a fase decisiva da sessão, o piloto da Ferrari premiou os olhos de quem gosta de automobilismo com uma atuação soberba, serpenteando o carro vermelho de número 5 nas ruas estreitas e junto aos muros e guard-rails. Na última volta, esfregou toda a lateral do bólido no concreto de proteção da pista. Mesmo assim, não tirou o pé e partiu para a pole position, deixando os rivais da Red Bull, sua antiga equipe, para trás.

O show de Vettel em Cingapura já foi visto em outros pilotos nesta temporada, mais precisamente em Lewis Hamilton. Sim, apesar de toda a tecnologia da Fórmula-1, com cada vez mais os engenheiros tomando as rédeas nos ajustes das máquinas em seus potentes lap-tops, o piloto continua fazendo a diferença. Na outra ponta deste balcão, outra verdade: nenhum grande corredor recebeu sua excelência por herança, seja de um compatriota ou mesmo por sangue, de pai para filho.

Na Fórmula-1, não existem sucessores!

Vettel e schumi na Fórmula 1

 

Vettel pode ter tido um caminho mais facilitado pelas incontáveis conquistas de Michael Schumacher. Entretanto, Vettel nada tem a ver com Schumacher. De igual, apenas a bandeira da Alemanha pintada ao lado de seus nomes nas laterais dos carros. Hamilton não é um novo John Surttes ou um James Hunt. O atual líder do campeonato tem luz própria!

Nelson Piquet não herdou a pilotagem nem o sucesso de Emerson Fittipaldi, assim como Ayrton Senna forjou sua trajetória na principal categoria do mundo por mérito, e do jeito, próprio. Nem Nelsinho Piquet carregou para dentro do carro a herança de sangue nem a genialidade de seu pai.

Nelsinho foi fazer sua carreira solo na F-1, com acertos e erros, o mais grave cometido no GP de Cingapura de 2008, no qual topou fazer parte de um plano sórdido inventado pelo gângster Flavio Briatore na equipe Renault. Para dar oportunidade de vitória para Fernando Alonso, Nelsinho teria de esperar o companheiro fazer seu pit stop no começo da prova e então provocar uma batida intencional no muro, para forçar a entrada do safety car.

Se Nelsinho tivesse os genes de piloto e de ser humano do pai, teria saído da malfadada reunião com Briatore diretamente para os microfones da imprensa. Além de não aceitar fazer parte da tramoia, Nelson, o pai, certamente teria colocado a boca no mundo contra seu chefe. Quando Nelsinho lhe contou sobre a falcatrua de Cingapura, o tricampeão rompeu relações com o filho. Laços que só voltariam a ser estreitados anos mais tarde.

A F-1 é rica em situações de um piloto ocupar o lugar de um compatriota ou mesmo de um parente. No entanto, o cetro nunca foi passado de geração para geração. O escocês Jackie Stewart jamais foi o sucessor de Jim Clark. O austríaco Niki Lauda nunca dividiu a mesma pista com o conterrâneo Jochen Rindt. Muito menos o canadense Jacques Villeneuve veio na esteira sucessória do pai Gilles, até por que os dois são completamente diferentes, seja como piloto, seja como homem.

E, por favor! Rubens Barrichello nunca foi o herdeiro de Ayrton Senna, embora a televisão responsável pelas transmissões para o Brasil tenha forçado a barra à exaustão. Em uma entrevista exclusiva com Rubinho em 2000, na véspera do GP do Brasil, ano em que o piloto brasileiro estava estreando na Ferrari, uma confissão sua serviu para ilustrar toda esta história de não passagem de bastão na F-1:

Pior que as pessoas forçando que eu era o sucessor do Ayrton foi eu ter acreditado naquilo!

Na F-1, não existe linha sucessória em um país, nem de pai para filho! Cada piloto tem sua vida própria, para o bem ou para o mal. Rubinho nunca se recuperou desse grosseiro erro de avaliação.

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