Fórmula 1

Fórmula 1 – O cérebro além da máquina

De Vittorio Jano a Adrian Newey, grandes projetistas da Fórmula 1 criam mitos das pistas

Autor: Daniel Dias (www.diasaovolante.com)
Fotos: Divulgação

newey Fórmula 1
23/01/2018, 19:19:53

O lançamento de um novo modelo para a temporada da Fórmula 1 sempre é envolvido em toda a pompa e circunstância. Curiosamente, as duas principais rivais de agora, Mercedes e Ferrari, apresentarão os carros do inglês Lewis Hamilton e do alemão Sebastian Vettel, os dois tetracampeões, no mesmo dia, em 22 de fevereiro, daqui a um mês. Outra coincidência: os novos bólidos das duas gigantes têm assinatura coletiva, com uma espécie de colegiado de projetistas das escuderias alemã e italiana.

Mas a história da maior categoria do automobilismo, no quesito, sempre foi bem diferente, com a figura de um homem predominando no projeto de criação e de desenvolvimento. Desde os anos 90, o inglês Adrian Newey (foto), de 59 anos, é sinônimo de especialista na concepção de um carro na Fórmula 1.

A trajetória de um homem por trás da máquina teve início com o húngaro naturalizado italiano Vittorio Jano, tirado “na marra” da Fiat por Enzo Ferrari no sonho do futuro “comendatore” de construir sua própria equipe. Jano era o grande trunfo de Enzo para convencer os dirigentes da Alfa Romeo de abrirem uma divisão esportiva. Nascia ali a Scuderia Ferrari, na segunda metade da década de 30.

Jano acompanhou Enzo durante toda a edificação da Ferrari, constituída como empresa autônoma no pré e no pós-Segunda Guerra Mundial, projetando as máquinas de competição e os lendários superesportivos de rua da Casa de Maranello. Jano morreu em 1965, vítima de câncer, e esteve ao lado de Enzo até o final.

Os grandes projetistas da Fórmula 1 surgiriam para valer no início dos anos 70, devido à importância da aerodinâmica na construção dos carros da Era Moderna, Mais especialmente com o apogeu do inglês Colin Chapman, autor, em conjunto com o norte-americano Ralph Bellamy, da revolucionária Lotus 72D, aquela do primeiro título do Brasil, com Emerson Fittipaldi, em 72. De tão magnífica, aquela Lotus competiu no Mundial de 70 a 75.

Ainda nos anos 70, o genial Chapman inventaria o “carro-asa”. A criação veio quando o velho dirigente-projetista observava, em um intervalo de treino, um de seus bólidos estacionado sob o Sol a pino. Na parte de baixo, ficara apenas a escura sombra da carroceria, ocultando o chão.

A ideia vinda da cabeça privilegiada de Chapman seguiu o conceito das asas de um avião. Ao contrário! “Se eu transformar todo o carro em uma asa de avião invertida, ele ao invés de subir ‘colará’ ao chão, produzindo o efeito-solo e se agarrando nas curvas sem perder aderência”, pensou Chapman.

Para que o vento que passava pela parte inferior não fosse perdido, Chapman criou uma espécie de mini-saia lateral. Pronto, estava inventado o “carro-asa”. Como só a Lotus tinha a parafernália em 78, ganhou o campeonato com uma mão nas costas com o ítalo-americano Mario Andretti.

Chapman não escondeu o segredo e, no ano seguinte, todas as outras equipes copiaram. A FISA – atual FIA – proibiu o carro-asa em seguida, banindo as mini-saias. No entanto, o conceito criado pelo gênio permanece até hoje, com o vento que passa pela parte de cima a empurrar os carros contra o asfalto.

Formado como engenheiro aeroespacial na Inglaterra, Adrian Newey é o mais perfeito discípulo de Chapman. Mas o circo teve outras cabeças iluminadas antes da chegada do atual projetista da Red Bull, o “último dos moicanos”.

Dois sul-africanos, Gordon Murray e Rory Byrne, foram expoentes. O primeiro desenhou modelos fantásticos ao lado de Nelson Piquet, um especialista em mecânica e exímio acertador de carros, na Brabham, e depois projetaria a magnífica McLaren do primeiro campeonato de Ayrton Senna em 88. O MP4/4 venceu 15 de 16 provas naquele ano.

Byrne foi pai, simplesmente, das “baratas” de todos os sete títulos do alemão Michael Schumacher, duas na Benetton, em 94 e 95, e cinco na Ferrari, de 2000 a 2004. O sul-africano, hoje com 73 anos, meio enjoado com tantas glórias, aproveitou a primeira aposentadoria do amigo Schumacher e anunciou que compraria uma ilha na Tailândia e passaria o resto da vida pescando. Ninguém sabe ao certo se o sonho dele realmente se concretizou, mas Byrne deixou seu nome na história da Fórmula 1.

Mudanças fazem parte de qualquer atividade profissional. Com a cada vez mais crescente evolução tecnológica e descentralização de poder, seria natural que os carros da Fórmula 1 também passassem a ser concebidos por um grupo de pessoas e não mais por apenas uma cabeça.

Newey, entretanto, é o melhor representante do chamado termo “lenda viva”. Autor de 10 carros campeões – na Williams, na McLaren e na Red Bull –, o engenheiro aeroespacial foi contratado a peso de ouro pela equipe austríaca, que, cheia de dólares, não permite sua saída por oferta nenhuma. A mais recente foi da Ferrari, prontamente recusada.

No ano passado, Newey foi protagonista de outro fato marcante, e que comprova sua permanente evolução como projetista e como dinossauro não extinto. Envolvido na criação de um supercarro de rua da parceria Red Bull e Aston Martin, Newey não criou o modelo da temporada 2017.

Depois da metade do ano, notando que o carro não andava, a direção da Red Bull foi buscar socorro no projetista inglês. Em menos de 15 dias, Newey “desentortou” a máquina e o RB13, do australiano Daniel Ricciardo e do holandês Max Verstappen, terminou o campeonato como o melhor carro de todo o grid. O RB14 será todo seu…

 

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