Entrevista

Douglas Brose – Aos socos e pontapés

Capitão da seleção brasileira de karatê comemora entrada do esporte nas Olimpíadas de Tóquio

Autor: Luiz Humberto Monteiro Pereira (humberto@esportedefato.com.br)
Fotos: Geraldo de Paula

15/10/2016, 13:26:58

Pouco antes das Olimpíadas do Rio de Janeiro, o Comitê Olímpico Internacional anunciou a inclusão de cinco novas modalidades esportivas para os Jogos de 2020. Estarão nas Olimpíadas de Tóquio o surfe, skate, beisebol, escalada esportiva e karatê. No caso do karatê, existem diversas federações mundiais, mas a escolhida pelo COI foi a WKF, que pratica um karatê mais leve, mais esportivo e menos marcial. Os atletas lutam com proteção de tórax e caneleira, para fazer pontos. A confirmação nos Jogos de 2020 foi comemorada pela comunidade brasileira e mundial da arte marcial japonesa como se fosse uma medalha de ouro. “É uma batalha que não vem de hoje. A última vez que chegamos perto foi em 2013, quando houve a exclusão do wrestling (luta greco-romana) das Olimpíadas. Mas depois eles decidiram retornar com o wrestling e o karatê acabou perdendo a vaga”, lembra o gaúcho Douglas Brose, 30 anos, capitão da seleção brasileira de karatê.

Maior nome do caratê nacional e atual líder do ranking mundial na categoria até 60 kg, Douglas está às vésperas de embarcar para o Mundial, que acontece entre 25 e 30 de outubro em Linz, na Áustria. Nas últimas quatro edições do Mundial, foi campeão em 2010 e 2014, vice em 2012 e terceiro em 2008. “Meu objetivo é fazer um bom trabalho para estar em mais uma final e conseguir mais uma medalha mundial”, explica Douglas, que começa o ciclo olímpico como a maior esperança de medalha do karatê do Brasil nos Jogos Tóquio 2020.

Esporte de Fato – Por que demorou tanto para que o karatê se tornasse uma modalidade olímpica?

Douglas Brose – Muitos esportes querem entrar nas Olimpíadas, mas os que estão dentro não querem sair e a quantidade de esportes no evento é limitada. É muito complicado entrar nessa lista definitiva. Mas o comitê organizador dos Jogos Tóquio 2020 fez uma proposta de não mexer nos 28 esportes que já estavam nos jogos, mas de adicionar um pacote de cinco novos esportes somente para essa edição, para que o público possa tomar conhecimento deles. E o karatê está nesse grupo de esportes que serão “experimentados” em Tóquio.

Esporte de Fato – Como será a competição de karatê em Tóquio 2020?

Douglas Brose – Na verdade, são duas competições em paralelo: as lutas e o katá. O katá simula “luta imaginária”, como se fosse uma apresentação solo de ginástica artística, onde o atleta apresenta sozinho, fazendo uma apresentação dos movimentos de ataque e defesa. A perfeição da execução e a velocidade dos golpes é analisada e recebe uma pontuação, como na ginástica artística. Já as lutas seguem o mesmo padrão das outras lutas que já estão nas Olimpíadas, em grupos divididos por sexo e pesos. As pontuações, que definem as vitórias, podem ser obtidas com socos ou com chutes.

Esporte de Fato – Como avalia as possibilidades do karatê brasileiro nos Jogos Tóquio 2020?

Douglas Brose – Temos atualmente três atletas brasileiros que estão muito bem no ranking mundial: eu, o paranaense Vinícius Figueira e a paulista Valéria Kumizaki. Para 2020, não adianta fazer um planejamento em longo prazo, pois as eliminatórias já começam em pouco mais de um ano. Dificilmente irá surgir nesse tempo um novo nome em condições de disputar em nível mundial. Teremos 2017 para treinar e polir os talentos que já temos para tentar chegar às eliminatórias em 2018 com chance de brigar pelas vagas e, em Tóquio, disputar medalhas.

Esporte de Fato – No circuito mundial, quais são as próximas competições importantes que irá disputar até lá?

Douglas Brose – A última competição internacional de 2016 é o Mundial em Linz, na Áustria, no final de outubro. Em julho do ano que vem será a vez dos World Games, na Polônia. E em 2018, na Liga Mundial, começam as as competições que renderão pontos para o ranking olímpico, que decidirá as vagas para Tóquio 2020.

Esporte de Fato – O que deveria ser feito para que o karatê se desenvolvesse mais no Brasil?

Douglas Brose – O karatê não é um esporte muito dispendioso e não requer grandes investimentos em termos de estrutura. Pode ser praticado praticamente em qualquer lugar. No alto rendimento, o mais importante é ter recursos humanos – atletas de ponta que possam lutar com você para que possa adquirir experiência. As melhores competições mundiais são na Europa e na Ásia. Para mandar uma equipe com três atletas em cada categoria, é preciso ter recursos. Essa questão é que vai fazer mais diferença. Quanto mais atletas nossos competirem internacionalmente, melhores resultados vamos conseguir. Quem viaja para competir volta com novas experiências e aprendizados, que partilha com os atletas do Brasil e ajuda a elevar o nível técnico por aqui.

COMENTÁRIOS